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IA compõe sertanejo universitário e artistas questionam autoria

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Eram 23h15 quando um produtor musical de Goiânia, com um estúdio improvisado no quarto dos fundos, digitou numa ferramenta de IA algo como: “composição sertanejo universitário, tema saudade, viola, BPM 96, refrão grudalho”. Quarenta e dois segundos depois, a tela mostrava letra, cifra e até sugestão de arranjo. Ele exportou o arquivo, dormiu, e no dia seguinte estava mandando a demo pra um cantor com 800 mil seguidores no Instagram. A música foi gravada. Entrou em playlist. Ninguém perguntou quem tinha escrito.

Esse episódio — que não é hipotético, variações dele estão acontecendo em estúdios de Goiás, do interior de São Paulo e do Triângulo Mineiro toda semana — coloca uma questão que vai muito além do debate técnico sobre IA. O problema não é a ferramenta compor música. O problema é que o setor sertanejo universitário está estruturalmente despreparado para lidar com autoria gerada por máquina, porque historicamente já tinha uma relação torta com crédito: ghostwriting era prática corriqueira muito antes do ChatGPT existir. A IA não criou o problema. Ela jogou luz numa ferida que já estava lá.

1. O mercado de composição sertaneja antes da IA já era uma zona cinzenta

Quem conhece o meio sabe: era (e ainda é) comum um compositor vender uma música por um valor fixo, assinar cessão total de direitos, e nunca mais ver royalty nenhum. O cantor figura como coautor — ou autor único — no registro do ECAD, mesmo tendo contribuído apenas com um verso ou nem isso. Isso não é segredo de Estado. É conversa de camarote em qualquer festival de rodeio.

Levantamentos do setor fonográfico nacional indicam que o segmento sertanejo responde por uma fatia expressiva das execuções públicas registradas no Brasil — há anos disputando o topo com o funk e o pagode. Com tanto dinheiro em jogo, a disputa por crédito de composição sempre foi intensa. Só que ela acontecia entre humanos, com contratos (muitas vezes leoninos), acordos de boca e pressão de gravadora.

Agora tem um novo personagem nessa equação: um algoritmo que não assina contrato, não cobra nada além da assinatura mensal da plataforma, e não vai entrar com processo judicial.

2. Como a IA compõe, na prática — e onde ela acerta feio

Ferramentas de geração de música e letra treinadas em grandes corpora de composições populares brasileiras conseguem, hoje, produzir estruturas funcionais de sertanejo universitário com uma velocidade que assusta. O gênero tem características que facilitam isso: progressões harmônicas recorrentes (I-V-vi-IV aparece em proporção alta), temática emocional previsível (traição, saudade, festa, reencontro) e vocabulário específico que se repete — “barzinho”, “uísque”, “chuva”, “cheiro de terra”.

Numa tarde de teste que fiz com uma dessas ferramentas, em menos de dez minutos eu tinha três opções de letra para uma música sobre término de relacionamento. Uma delas tinha uma imagem que, honestamente, eu não teria pensado sozinho tão rápido. O refrão tinha metro, tinha rima toante, tinha o tipo de gancho emocional que faz a galera apontar o dedo pra cima na balada. Funcionava.

O que não funcionava: as letras tinham uma estranheza sutil nas preposições, um ou dois versos que soavam como tradução do inglês, e nenhum detalhe regional que diferenciasse uma música goiana de uma música paulista. A IA compõe o gênero, mas não compõe o sotaque. Ainda.

3. O que os artistas estão dizendo — e o que estão evitando dizer

Compositores que vivem de escrever pra terceiros — a chamada “terceirização de letra” — estão divididos. Uma parte menor está usando IA como ponto de partida: geram rascunho, reescrevem, humanizam, entregam. Outra parte está com medo de falar sobre o assunto publicamente porque o mercado ainda não definiu se isso é “trapaça” ou “ferramenta”.

Já alguns intérpretes estão sendo mais diretos. Em entrevistas recentes a veículos especializados em música brasileira, artistas de médio porte do circuito universitário admitiram ter recebido demos onde o produtor “usou um negócio de IA pra dar o pontapé”. A maioria não sabia exatamente o que isso significava em termos de direito autoral.

E aí tá o nó: a legislação brasileira de direito autoral, a Lei nº 9.610/1998, exige que o autor seja uma pessoa física. IA não é pessoa física. Então, formalmente, uma composição gerada por IA não tem autor — o que na prática significa que quem registrar primeiro no ECAD leva. Produtor, cantor, empresário, qualquer um. A máquina não vai reclamar.

4. O que não funciona: quatro respostas comuns que são furadas

Toda vez que esse debate aparece, surgem as mesmas quatro saídas. Nenhuma delas resolve.

  • “Basta proibir o uso de IA na composição.” Não tem como fiscalizar. Você não consegue olhar pra uma letra e saber com certeza se foi gerada por algoritmo ou por um humano com pressa numa madrugada de terça. Proibição sem rastreabilidade é decoração.
  • “O ECAD vai se adaptar e criar uma categoria nova.” O ECAD administra distribuição de royalties, mas não é árbitro de autoria — ele registra o que lhe é apresentado. A responsabilidade de declarar autoria verdadeira é de quem registra. Criar uma “categoria IA” não resolve o problema se a pessoa simplesmente não declarar que usou IA.
  • “Artistas de verdade não vão usar IA, o público vai perceber a diferença.” O público não está percebendo. Playlists de sertanejo universitário gerado por IA já circulam em plataformas de streaming com números decentes de plays. O ouvido médio não distingue composição humana de composição algorítmica quando a produção é boa.
  • “É só uma fase, vai passar.” Isso é o que a indústria fonográfica disse sobre o MP3 em 1999, sobre o streaming em 2008, sobre o TikTok em 2019. Não passou. Evoluiu.

5. Um caso concreto: quando a IA entrou no processo sem avisar ninguém

Uma dupla sertaneja do interior de Minas — vou chamar de dupla X pra preservar — lançou um EP de cinco músicas no segundo semestre do ano passado. Três delas tinham passado por um produtor que usou uma ferramenta de geração de letra pra criar o rascunho inicial. O produtor reescreveu partes, a dupla mexeu no refrão de uma delas, e o resultado final estava “70% IA, 30% humano”, segundo o próprio produtor me contou numa conversa informal.

O EP foi bem. Uma das músicas — justamente uma das geradas com IA — bateu 400 mil streams em três semanas. Os direitos autorais foram registrados no nome da dupla e do produtor. Ninguém declarou participação de ferramenta algorítmica. Ninguém foi questionado.

O produtor disse que se sentiu “um pouco estranho” mas que “todo mundo tá fazendo”. Quando perguntei se ele usaria IA de novo, ele respondeu: “Depende do prazo e do cachê.” Essa resposta é mais honesta do que qualquer posição oficial que você vai ouvir numa entrevista gravada.

O que deu errado no processo: a dupla X ficou sem saber direito o que era “dela” naquelas músicas. Numa das cinco, a letra tinha uma metáfora que nenhum dos dois conseguia explicar a origem — e isso incomodou o vocalista mais velho na hora de apresentar a música em entrevista de rádio. Pequeno, mas revelador.

6. O que a indústria fonográfica internacional já está tentando fazer

Grandes plataformas de streaming adotaram, nos últimos dois anos, políticas que exigem declaração de uso de IA no upload de conteúdo. Algumas removeram faixas identificadas como geradas inteiramente por algoritmo sem crédito humano real. Associações de compositores em países como Estados Unidos e Reino Unido estão pressionando por marcos regulatórios específicos.

No Brasil, o debate ainda está engatinhando. Há discussões em curso sobre atualização do marco legal de direito autoral para contemplar criações com participação de IA — mas “em curso” no ritmo legislativo brasileiro pode significar anos. Enquanto isso, o mercado sertanejo opera no vácuo.

Uma iniciativa que começa a aparecer em outros gêneros musicais é a chamada “etiqueta de transparência”: o compositor declara voluntariamente qual porcentagem do trabalho foi assistida por IA, similar ao que algumas publicações jornalísticas fazem com notas editoriais. No sertanejo universitário — onde o ego artístico e a imagem de “compositor nato” são ativos de marketing — essa transparência voluntária vai enfrentar resistência cultural enorme.

7. A questão real de autoria que ninguém quer encarar

Autoria, no fundo, é uma construção social tanto quanto jurídica. A gente decidiu, culturalmente, que quem cria uma obra merece reconhecimento e compensação financeira. Mas “criar” sempre foi um conceito escorregadio na música popular: arranjo é criação? Interpretação é criação? Aquele riff que o guitarrista tocou no estúdio e ninguém creditou é criação?

A IA está forçando o setor a responder perguntas que ele preferia deixar em aberto. Se uma ferramenta gerou 60% de uma letra e um humano escreveu os outros 40%, quem é o autor? Se a contribuição humana foi apenas escolher entre três opções que a IA gerou, isso conta como criação?

Não tenho resposta definitiva pra isso — e desconfie de quem tiver. O que sei é que fingir que a pergunta não existe é a pior das respostas. E o setor sertanejo universitário, que movimenta bilhões de reais por ano e forma a trilha sonora do agronegócio e das festas universitárias de metade do país, precisa de uma posição mais elaborada do que “todo mundo tá fazendo”.

O que você pode fazer essa semana — se for do setor

Não vou pedir que você “repense o futuro da música” ou “lidere uma transformação”. Três coisas pequenas, concretas, que qualquer pessoa ligada a composição, produção ou gestão musical pode fazer agora:

  • Se você usou IA em qualquer composição nos últimos seis meses, abra os contratos daquelas músicas e leia o que diz sobre autoria. Não pra se incriminar — pra entender o risco que você já assumiu sem saber.
  • Se você é compositor e vai fechar um acordo novo, inclua uma cláusula — mesmo que informal, mesmo que num e-mail — especificando se IA foi usada ou não. Isso cria histórico. Histórico vale em litígio.
  • Se você é intérprete ou gestor de carreira, pergunte ao produtor, na próxima reunião, qual foi o processo de composição. Uma pergunta direta, sem julgamento: “Usou alguma ferramenta de geração de conteúdo?” A resposta — qualquer que seja — é informação que você precisa ter antes do lançamento, não depois.

A máquina compõe rápido. O contrato ainda é lento. E nesse intervalo, alguém sempre paga o preço — geralmente quem menos tem poder de barganha na mesa.