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Como o Carnaval Pós-Pandemia Redefine Quem Somos

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Era quase 23h de uma segunda-feira de fevereiro quando a Sílvia — 34 anos, professora de história em Belo Horizonte — parou no meio da Rua Guaicurus com o bloco ainda rolando atrás dela e percebeu que estava chorando. Não de tristeza. Era aquela coisa estranha que acontece quando você recupera algo que nem sabia que tinha perdido. Ela me contou isso meses depois, ainda tentando explicar: “Eu fui pro carnaval achando que ia só dançar. Saí de lá sem saber quem eu era do jeito antigo.”

A história da Sílvia não é exceção. É o padrão.

O problema não é a festa — é quem voltou pra ela

A narrativa mais fácil sobre o carnaval pós-pandemia é a da retomada: a festa voltou, o povo foi às ruas, a alegria resistiu. Essa versão está nos press releases das prefeituras e nos posts das cervejarias patrocinadoras. Ela não está errada — mas ela ignora o dado que importa.

O problema não é que o carnaval mudou. É que as pessoas que voltaram pra ele não são mais as mesmas que saíram em março de 2020. Dois, três anos de isolamento, luto, terapia online, reconfiguração de vínculos — isso não passa em branco. Você não volta pra uma festa assim como quem volta de uma viagem de negócios. Você volta diferente, e a festa serve de espelho.

Levantamentos de comportamento do consumidor realizados por institutos de pesquisa nacionais apontaram, nos primeiros carnavais após o isolamento, um dado curioso: parte significativa das pessoas que foram aos blocos relatou ter tido alguma experiência emocional inesperada — choro, euforia desproporcional, vontade de sumir no meio do cortejo. Não era ressaca de dois anos sem festa. Era renegociação de identidade.

O bloco como laboratório: o que acontece quando você não tem roteiro

Uma coisa que carnaval faz, e que a pandemia ensinou a temer, é tirar o controle. No isolamento, a vida virou planilha — horário de reunião, janela de entrega do delivery, agenda de lives. Tudo mediado por tela, tudo previsível dentro do caos.

O bloco de rua é o oposto disso. Você chega às 7h da manhã numa esquina de São Paulo com uma fantasia que você montou na noite anterior com o que tinha em casa, e daí pra frente nada é previsível. A pessoa ao seu lado pode ser alguém que vai te abraçar como se te conhecesse há vinte anos ou alguém que vai sumir na multidão antes de você aprender o nome. O seu corpo, que ficou dois anos sendo gerenciado com cuidado obsessivo — máscara, distância, higienização —, de repente tá em contato com outros corpos sem filtro.

Isso ativa coisas. Coisas que muita gente não esperava.

O Rodrigo, publicitário de 29 anos que passou a pandemia morando sozinho num apartamento de 42 metros quadrados no centro do Rio, me disse que ficou parado em frente ao trio elétrico por uns vinte minutos sem conseguir entrar na multidão. “Meu corpo não sabia mais como fazer aquilo. Eu fiquei olhando as pessoas dançando como se fosse um filme.” Ele entrou. Demorou, mas entrou. E quando entrou, diz que sentiu que alguma coisa que tinha travado ali dentro se soltou.

Fantasia não é fuga — é ensaio

Aqui tem uma inversão que a gente precisa fazer.

Durante muito tempo, a fantasia de carnaval foi lida como escapismo — você vira outra pessoa por quatro dias e depois volta pra sua vida normal. Faz sentido como leitura superficial. Mas quem pesquisa identidade e performance sabe que esse movimento é mais complexo do que parece.

Quando você escolhe uma fantasia — e a escolha importa, mesmo que seja feita às pressas na véspera —, você tá ensaiando uma versão de você mesmo que talvez não tenha espaço no cotidiano. A pessoa que usa a fantasia de guerreira não é necessariamente quem quer ser guerreira. É quem tá testando o que acontece quando ela se permite ocupar mais espaço. O homem que resolve ir de drag num bloco pela primeira vez não tá necessariamente declarando identidade de gênero — às vezes tá só abrindo uma porta pra ver o que tem do outro lado.

Depois de três anos em que a maioria das pessoas teve que encolher — emocionalmente, socialmente, fisicamente — esse ensaio ganhou uma carga que ele não tinha antes de 2020.

O que não funciona: quatro formas de desperdiçar esse momento

Existem formas de ir ao carnaval e voltar exatamente igual. Não porque o carnaval falhou — mas porque você fechou a porta antes de entrar.

  • Ir por obrigação social. “Todo mundo vai, não dá pra ficar em casa.” Essa motivação produz presença física e ausência total. Você fica no bloco olhando o celular e volta pra casa confirmando que carnaval “não é a sua praia”. Não é que não seja — é que você não chegou lá.
  • Documentar mais do que viver. Oito horas de bloco, seis horas de stories. Eu entendo o impulso — eu fiz isso. Mas quando você tá atrás da câmera o tempo inteiro, você tá gerenciando a experiência em vez de ter ela. E é justamente o não-gerenciado que transforma.
  • Trazer a turma como escudo. Ir com vinte amigos e nunca se afastar do grupo é uma estratégia de segurança que funciona muito bem pra não se surpreender. O problema é que surpresa é o mecanismo. Sem ela, você só confirmou que gosta das mesmas pessoas que já gostava.
  • Exigir que seja como antes. “Esse bloco não é mais o mesmo.” Claro que não é. Você também não é. Carnaval que parece igual ao de 2019 provavelmente tá te entregando nostalgia, não experiência. São coisas diferentes, e só uma delas muda alguma coisa em você.

Quando deu errado: o carnaval de 2023 da Fernanda

A Fernanda tem 41 anos, é médica, e foi pro carnaval de Salvador em 2023 com a expectativa explícita de que ia ser a virada. Ela me contou tudo isso com a clareza de quem já processou bem.

No primeiro dia, ela teve uma crise de ansiedade no meio do circuito Barra-Ondina. Não conseguiu ficar. Foi pro hotel, pediu room service, assistiu série. No segundo dia, tentou de novo — foi a um bloco menor, ficou por duas horas, voltou cedo. No terceiro dia, acordou às 6h da manhã por conta própria, foi até a praia antes de todo mundo chegar, ficou olhando o mar por quarenta minutos e aí decidiu ir a pé até um bloco de axé que ela nem tinha planejado.

“Aquele pedaço foi o carnaval,” ela diz. “Os outros dois dias foram o preço que eu paguei pra chegar lá.”

Não foi a virada dramática que ela esperava. Mas ela voltou pra São Paulo com uma percepção diferente do próprio corpo, da própria capacidade de estar em desconforto sem sair correndo. Isso não é pouco.

O que fica depois que a purpurina sai

Tem uma coisa que carnaval faz que nenhum retiro de meditação, nenhum workshop de autoconhecimento e nenhuma jornada de terapia replica com a mesma eficiência: ele coloca você em contato com estranhos sem agenda.

Terapia tem estrutura. Retiro tem regra. Carnaval não tem nenhuma das duas coisas — tem caos organizado por ritmo. E dentro desse caos, o que emerge é uma versão de você que não foi preparada pra se apresentar. É bruta, é honesta, às vezes é constrangedora.

Depois da pandemia, essa honestidade ficou mais necessária porque muita gente passou anos se apresentando de formas muito controladas — nas videochamadas de trabalho, nas redes sociais, nos encontros limitados a bolhas de segurança. O carnaval é onde você pode ser visto por gente que não vai te julgar amanhã porque não vai te ver amanhã.

Isso tem valor terapêutico real. Não estou usando a palavra como metáfora.

Identidade não é o que você declara — é o que você faz quando ninguém tá te observando

O que a Sílvia, o Rodrigo e a Fernanda têm em comum não é que o carnaval os curou de algo. É que o carnaval funcionou como um teste de estresse emocional que revelou onde cada um deles estava de verdade — não onde achavam que estavam.

Identidade não é o que você escreve no perfil do LinkedIn. Não é o que você posta no Instagram. É o que aparece quando você tá com o pé doendo, suado, com a fantasia rasgada, às 2h da manhã, rodeado de gente que você nunca viu — e você tá sorrindo.

Ou chorando. Como a Sílvia.

Ou parado na frente da multidão sem conseguir entrar. Como o Rodrigo.

Ou no hotel pedindo room service. Como a Fernanda no primeiro dia.

Todas essas respostas são informação. E informação sobre quem você é — de verdade, não na versão editada — é o material mais raro e mais útil que existe.

Três coisas pequenas que você pode fazer essa semana

Não precisa esperar o próximo fevereiro.

Primeiro: se você foi ao carnaval nos últimos dois anos, sente por quinze minutos e escreve — à mão, se possível — uma cena específica que ficou. Não o resumo do fim de semana. Uma cena. O que ela diz sobre quem você é agora?

Segundo: se você não foi — por escolha ou por circunstância —, pergunte a si mesmo o que você evitou. Não “carnaval não é meu estilo”. O que, especificamente, você não queria sentir? Essa resposta provavelmente é mais útil do que parece.

Terceiro: procure um evento — pode ser um bloco de julho, um sarau, uma festa junina num bairro que você não conhece — onde você vai estar entre gente que não te conhece. Vá sem agenda. Fica pelo menos duas horas. Veja o que aparece.

A purpurina sai na primeira lavagem. O que fica, fica de verdade.