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Axé conquista a Gen Z: por que a música dos anos 90 voltou a bombar

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Era uma sexta-feira à noite, por volta das 22h, numa festa universitária em São Paulo. A DJ colocou Levada do Amor, da Netinha, e o que aconteceu foi difícil de acreditar: a pista — lotada de pessoas que tinham entre 20 e 24 anos, a maioria nascida depois de 1999 — explodiu. Todo mundo sabia a letra. Todo mundo gritou junto. E ninguém estava sendo irônico.

Eu fiquei parado na beira da pista por um bom tempo, tentando entender o que estava vendo. Porque essas pessoas não viveram o axé. Elas não assistiram ao Forró in Rio na TV, não viram o clipe da É o Tchan no horário nobre, não sentiram a febre do verão de 1997. Elas descobriram tudo isso pelo TikTok — e, de alguma forma, abraçaram o gênero com uma autenticidade que envergonha qualquer nostalgia forçada.

1. O problema não é saudade — é que a Gen Z nunca teve axé pra sentir saudade

Aqui tá o insight que a maioria dos artigos sobre esse tema erra feio: todo mundo enquadra o fenômeno como “nostalgia”. Como se a geração Z estivesse resgatando algo que perdeu. Mas eles nunca tiveram isso. Não existe saudade de algo que você não viveu.

O que está acontecendo é diferente — e mais interessante. A Gen Z encontrou no axé dos anos 90 exatamente o que faltava na música pop atual: batida física, letra direta, dança que exige o corpo inteiro e uma energia coletiva que o funk atual, por melhor que seja, não entrega da mesma forma. Axé é gênero de pista, de suor, de coreografia aprendida em grupo. Num tempo em que tudo é consumido no fone de ouvido, sozinho, deitado na cama, o axé virou — paradoxalmente — um ato de resistência social.

2. O TikTok fez o que o rádio fez nos anos 90 — só que em velocidade absurda

Levantamentos de plataformas de streaming mostram que faixas de axé clássico tiveram aumentos expressivos de streams entre ouvintes de 18 a 24 anos nos últimos dois anos — em alguns casos, crescimentos de três dígitos em relação ao período anterior. Não é um nicho pequeno. É um movimento com volume real.

A mecânica do TikTok favorece exatamente o tipo de música que o axé oferece: refrão fácil de reproduzir, batida marcada, dança com movimentos reconhecíveis. Quando alguém posta um vídeo dançando Bambolê da Ivete Sangalo ou Swing da Cor do É o Tchan, o algoritmo não pergunta se você nasceu em 1985 ou em 2003. Ele entrega o vídeo pra quem vai engajar. E a Gen Z engajou.

O que diferencia esse ciclo do passado é a velocidade. Nos anos 90, um hit de axé levava meses pra sair da Bahia e chegar às festas de São Paulo e Rio. Hoje, um vídeo postado em Salvador às 14h pode estar sendo dançado em Porto Alegre às 17h do mesmo dia.

3. Ivete, Bell Marques e Claudinha: os nomes que a Gen Z descobriu sem intermediário

Tem um detalhe que eu acho fascinante nesse fenômeno: a Gen Z não descobriu o axé pelos pais. Descobriu pelo algoritmo — e depois foi perguntar pros pais quem era aquela mulher de cabelo loiro cantando Arerê. A ordem se inverteu.

Ivete Sangalo, que já era um ícone consolidado, ganhou uma nova camada de público. Bell Marques, que estava mais ligado ao circuito de fãs antigos, começou a aparecer em playlists de universitários. Claudinha Strabello virou referência de nostalgia — mesmo pra quem nunca a tinha ouvido antes. E o É o Tchan, com sua dança característica e suas letras absolutamente sem pretensão, virou objeto de afeto genuíno.

Numa conversa que tive com uma estudante de 21 anos em Recife, ela me disse algo que ficou na cabeça: “Eu ouço axé porque me faz querer dançar do jeito que eu danço quando estou sozinha em casa — mas com outras pessoas.” Isso resume muito.

4. O axé novo: o que os artistas de hoje estão fazendo com essa onda

O movimento não é só de resgate. Tem uma camada nova sendo construída agora — e ela é importante pra entender se o fenômeno vai durar ou vai ser mais uma moda de seis meses.

Artistas baianos mais jovens estão lançando músicas que bebem diretamente do axé dos 90, mas com produção atualizada: sintetizadores mais encorpados, influência de funk e pagode baiano, letras que falam de relacionamento com a linguagem de 2026. Não é pastiche — é evolução. E a Gen Z, que tem um radar afiado pra distinguir autenticidade de oportunismo, está respondendo bem a isso.

Festivais que antes apostavam só em trap e funk eletrônico começaram a incluir palcos de axé. Não como curiosidade, não como “pocket show de nostalgia” — como atração principal. Isso diz muito sobre onde o mercado vê potencial real de público.

5. O que não funciona nessa conversa toda — e precisa ser dito

Tem muita análise preguiçosa circulando sobre esse tema. Vou ser direto sobre o que não se sustenta:

  • Dizer que é só trend de TikTok e vai passar: Toda trend passa, mas algumas deixam rastro permanente de público. O funk carioca foi “trend” nos anos 2000 e hoje é gênero hegemônico. Tratar o axé como moda temporária é subestimar o que está acontecendo com o consumo musical da geração.
  • Romantizar demais a “pureza” do axé original: Parte dos fãs antigos está na defensiva, achando que a Gen Z está “usando” o gênero de forma superficial. Isso é elitismo cultural disfarçado de amor pelo gênero. Música não tem dono. Quem chegou agora tem tanto direito ao axé quanto quem estava lá em 1995.
  • Ignorar o contexto econômico: Shows de axé são, em geral, mais acessíveis que grandes shows de pop internacional. Num momento em que ingressos de shows gringos chegam a valores absurdos em BRL, a virada pro axé também tem um componente prático. Isso não diminui o fenômeno — faz parte dele.
  • Apostar que as gravadoras vão “salvar” o movimento: Quando o mercado fonográfico percebe uma onda, a primeira reação costuma ser tentar empacotar e vender de volta. Mas o axé que está conquistando a Gen Z não precisa de relançamento oficial — ele já está sendo redistribuído organicamente. Gravadora que tentar controlar isso vai chegar atrasada.

6. Uma semana acompanhando o consumo de axé de uma pessoa de 22 anos

Pedi pra uma amiga — 22 anos, criada em Campinas, ouve muito mais rap e pop do que qualquer outra coisa — que me deixasse acompanhar como o axé aparecia na vida dela durante uma semana. O resultado foi mais revelador do que eu esperava.

Segunda: ela abriu o TikTok às 7h da manhã e caiu num vídeo de uma influenciadora dançando Dança do Créu. Ficou vendo por oito minutos. Não salvou nada, mas ficou cantarolando a música no banho.

Quarta: numa academia, a instrutora de jump colocou um remix de Maimbê Dandá. Ela me mandou mensagem: “minha instrutora é gênio”. Não sabia o nome da música, buscou a letra no Google, salvou a playlist.

Sexta: foi a uma festa temática de “anos 90 e 2000”. Ficou das 23h às 3h. Dançou axé por quase duas horas seguidas — algo que ela me disse nunca ter feito antes. No domingo, adicionou uma playlist de axé clássico ao Spotify. Essa playlist ainda estava no repeat na semana seguinte.

O que não funcionou: na quinta-feira, ela tentou ouvir axé enquanto estudava e não conseguiu. “É impossível, a batida me distrai demais.” Axé não é música de fundo. É música de presença. Isso, aliás, é parte do que o torna especial — e diferente de tudo que a geração já tinha.

7. Por que Salvador ainda é o centro gravitacional de tudo isso

Tem um dado que não muda: qualquer conversa séria sobre axé começa e termina em Salvador. O Carnaval baiano, o Circuito Dodô, o Campo Grande — são esses os laboratórios onde o gênero se reinventa todo ano. E a Gen Z, que viaja mais e documenta tudo, está descobrindo Salvador como destino cultural de uma forma que as gerações anteriores talvez não tenham valorizado tanto.

Conversei com jovens de São Paulo e Rio que foram ao Carnaval de Salvador pela primeira vez nos últimos dois anos especificamente por causa do axé que descobriram online. Chegaram sem saber muito. Voltaram convertidos. O ciclo se fecha: o algoritmo leva ao gênero, o gênero leva à cidade, a cidade consolida o amor pelo gênero.

Isso tem impacto real de turismo, de economia local, de visibilidade pra artistas baianos que talvez nunca tivessem chegado a esse público por outra via.

8. O que a indústria ainda não entendeu sobre esse público

A Gen Z não quer axé embalado como relíquia. Ela não quer o show-tributo com telão de fotos antigas e narração nostálgica. Ela quer a experiência viva — o artista em cima do trio elétrico, a batida no peito, a coreografia que você aprende na hora vendo o de cima.

Quem está ganhando dinheiro de verdade com essa onda não são as grandes gravadoras relançando álbuns em edição especial. São os promotores de festa que entenderam que um set de axé dos 90 numa boate certa, numa sexta-feira certa, enche casa com público de 20 e poucos anos pagando ingresso cheio — e consumindo no bar.

O produto que a Gen Z está comprando não é o CD. É a memória que ela vai construir agora, ao vivo, com os amigos. Esse é o ponto que a indústria demora pra entender.

O que você pode fazer essa semana

Se você é artista, produtor, DJ ou trabalha com eventos — ou simplesmente quer entender melhor esse fenômeno de dentro:

  • Passe 20 minutos no TikTok buscando por “axé” e “baile anos 90” — não pra copiar, mas pra ver quais músicas estão gerando mais vídeos espontâneos. Isso diz mais sobre o gosto real da Gen Z do que qualquer relatório.
  • Vá a uma festa de axé — mesmo que você ache que não é o seu estilo. Leve alguém de 20 e poucos anos. Observe como essa pessoa reage. A diferença entre ler sobre o fenômeno e estar dentro dele é enorme.
  • Se você toca, produz ou canta, experimente incorporar uma referência de axé clássico em algo que você está criando — não como homenagem explícita, mas como camada. A Gen Z vai reconhecer sem que você precise explicar.

O axé não voltou porque alguém planejou. Voltou porque a Gen Z precisava de algo que a música atual não estava oferecendo: corpo, coletivo e alegria sem justificativa. Quando a batida certa encontra o momento certo, nenhum algoritmo precisa forçar nada. A pista já sabe o que fazer.